Alterações Cárdio-Respiratórias

NOÇÕES BÁSICAS DE ANATOMO-FISIOLOGIA

O sistema circulatório tem uma função primordial na distribuição de oxigénio e nutrientes a todas as células do organismo. Para que a circulação se processe é necessário que o coração mantenha a sua função de bomba de forma eficaz.

O coração é formado por duas cavidades superiores, as aurículas, e duas cavidades inferiores, os ventrículos.

O sangue no sistema circulatório faz dois percursos. A pequena circulação leva o sangue do coração, através da artéria pulmonar, até aos alvéolos pulmonares para expelir o dióxido de carbono e receber o oxigénio, voltando ao coração, pela artéria aorta, até ao seu retorno ao coração pelas veias cavas, após ter fornecido todos os nutrientes e oxigénio a todas as células, recebendo destas o dióxido de carbono e outros produtos de excreção celular.

A função respiratória está intimamente ligada à função circulatória. Só mantendo uma boa capacidade ventilatória é possível o sangue receber a quantidade de oxigénio necessária à manutenção dos órgãos, com especial atenção para o cérebro.

A respiração compreende a fase de ventilação pulmonar e a fase de respiração celular, na qual se processem as trocas gasosas entre o sangue e as células. A fase ventilatória processa-se através de ciclos e cada ciclo ventilatório compreende um momento de inspiração, que corresponde à entrada de ar oxigenado na árvore brônquica, passando a um momento de pausa até ao próximo ciclo ventilatório.

Num adulto, a frequência ventilatória situa-se num intervalo de 12 a 18 ciclos/minuto. Quanto à pulsação/frequência cardíaca, esta situa-se no intervalo de 60 a 80 batimentos/minuto.

DOR PRECORDIAL

O coração só mantém a eficácia de bomba propulsora do sangue, garantindo a perfusão sanguínea de todos os órgãos do corpo, quando ele próprio tem garantido o fornecimento de oxigénio através de uma rede própria, a rede coronária, composta por artérias e veias coronárias que irrigam o miocárdio. Os vasos coronários, tal como todos os outros, podem ser lesados pela aterosclerose – processo de envelhecimento com deposição de placas no interior da parede dos vasos, resultando em obstrução.

Se ocorrer uma diminuição ou interrupção súbitas de sangue oxigenado ao miocárdio, este pode entrar em sofrimento decorrente de isquémia a que vai estar sujeito. Esta lesão pode ser suficientemente extensa para comprometer as funções cardíacas e, quando mantida, pode estabelecer-se o choque cardiogénico.

As situações mais comuns de alterações cárdio-vasculares são:

Angina de Peito

Ocorre quando as necessidades do miocárdio em oxigénio não conseguem ser supridas pela perfusão sanguínea fornecida pelas artérias coronárias. A obstrução parcial, com estreitamento do seu lúmen, diminui a perfusão do miocárdio e causa isquémia dos tecidos perfundidos, por esses vasos estreitados, particularmente em todas as situações que aumentem o consumo de oxigénio, por haver aceleração do ritmo cardíaco. A forma mais frequente de manifestação desta situação é o desconforto torácico, com maior incidência na região precordial.

Como razão da precipitação da crise da angina de afiguram-se diversas situações que exigem uma maior aporte de sangue oxigenado ao coração e restantes tecidos, tais como o esforço, a tensão emocional ou ainda durante a digestão de refeições mais abundantes. Normalmente, estes doentes estão medicados com nitratos (vasodilatadores) sublinguais que, perante o início da crise, são administrados e, em conjunto com o repouso, aliviam a situação.

Enfarte Agudo do Miocárdio

Resulta de uma obstrução brusca e total de uma artéria coronária ou das suas ramificações, privando a circulação a determinada zona do músculo cardíaco e ocasionando morte celular (necrose). Esta situação não está directamente relacionada com o esforço ou emoção podendo mesmo surgir quando a vítima está em repouso (ex.: durante o sono). Por vezes é difícil distinguir, apenas pela sintomatologia, ambas as situações. No entanto, embora os sinais e sintomas que as vítimas apresentam sejam por vezes muito semelhantes, na angina de peito o quadro clínico é geralmente menos exuberante e mais autolimitado na localização e duração.

Sinais e Sintomas

  • Sensação de desconforto torácico
  • Dor precordial, de localização retro-esternal e de carácter opressivo, com irradiação para o pescoço e membro superior esquerdo e, menos frequentemente, para o membro superior direito, maxilar inferior e epigastro (estômago)
  • Dor precordial sem qualquer factor de alívio ou agravamento (ex.: dor sem alívio ou agravamento quando executada uma inspiração profunda, movimento do tórax ou pressão sobre o tórax)
  • Angústia, ansiedade e agitação
  • Náuseas e vómitos
  • Sudorese (suores)
  • Meteorismo abdominal (gases)
  • Ventilação difícil
  • Pulso rápido, fraco e irregular
  • Possível inconsciência

Primeiro Socorro

  • Promover o transporte ao hospital pelos meios adequados
  • Manter um ambiente tranquilo junto da vítima
  • Evitar qualquer tipo de movimento
  • Reforçar a confiança
  • Se consciente, colocar a vítima numa posições confortável, sempre com o tronco ligeiramente mais elevado
  • Se inconsciente, colocá-la em Posição Lateral de Segurança (PLS)
  • Manter a temperatura corporal
  • Vigiar as funções vitais
  • Averiguar se toma medicação específica (se necessário, colocar um comprimido debaixo da língua)

PARAGEM CARDÍACA EM SITUAÇÕES ESPECIAIS

Todos os actos de socorro constituem perícias técnicas, fundamentadas cientificamente, cujo objectivo central é a estabilização ou melhoria da situação da vítima. Para um melhor domínio da técnica, o seu trieno e execução são feitos, habitualmente, em óptimas condições. No entanto, na maior parte dos casos, há necessidade de adaptar a técnica a cada doente/vítima, às suas características físicas ou à especificidade da situação.

Asma

A paragem cardíaca num doente asmático destaca-se de todas as outras situações pela hipoxémia e aumento de resistência da via aérea que lhe estão associados. Por este facto, deve o socorrista prevenir a possível insuflação gástrica, com consequente regurgitação e risco de aspiração.

Lesão da Coluna Cervical

Havendo suspeita de lesão da coluna cervical (ex.: se a vítima sofreu uma queda, se bateu com a cabeça ou com o pescoço ou foi recolhida após um mergulho em águas superficiais) deve ter um cuidado particular na manipulação, durante as manobras de reanimação, para manter o alinhamento da cabeça, pescoço e tórax. Deve utilizar um colar cervical, se disponível. Se não houver um colar cervical adequado, pode ser necessário recorrer à ajuda de terceiros para manter o alinhamento pretendido, até se conseguir encontrar uma solução. A vítima deve ser mantida na posição horizontal durante o salvamento. Ao libertar a via aérea, em vez da extensão da cabeça, utilizamos uma técnica de elevação da mandíbula.

Uma reanimação com sucesso que termina com uma paralisia é trágica; a falta de ventilação adequada, em caso de paragem ventilatória, é fatal.

Gravidez

Durante a gravidez são duas as pessoas a reanimar, mas a viabilidade fetal depende das técnicas de suporte vital aplicadas à mãe. As causas de paragem cardíaca materna são diversas e incluem: hemorragia, embolia pulmonar, embolia de líquido amniótico, descolamento prematuro da placenta e eclampsia.

Os procedimentos iniciais de reanimação são idênticos: permeabilizar e limpar a via aérea, verificar a ventilação e os sinais circulatórios.

A fim de aliviar a pressão do útero grávido sobre a veia cava inferior, devem ser colocados sob o flanco direito da grávida, almofadas, sacos de areia ou cunhas apropriadas, por forma a permitir que fique com este flanco ligeiramente elevado. Assim posicionada, faz-se a compressão cardíaca nos moldes tradicionais.

Electrocussão

A vítima pode ser fulminada por um raio, pela electricidade doméstica ou industrial. O contacto com a humidade ou outros condutores favorece a electrocussão, mas a gravidade da lesão depende sobretudo da área de contacto, do trajecto e da quantidade de corrente. A electricidade tende a percorrer os músculos, nervos e vasos. Daí poder paralisar os músculos ventilatórios e afectar o miocárdio, provocando paragem ventilatória e cardíaca.

Em função do tipo de acidente podem coexistir lesões mais ou menos graves e extensas (ex.: queimaduras, electrocoagulação ou necrose celular alargada).

As circunstâncias do acidente nem sempre são presenciadas pelo que é aconselhável pesquisar, sistematicamente, queimaduras nos pontos de entrada e saída de corrente.

O socorrista deve certificar-se sempre de que todas as fontes de corrente foram desligadas antes de se aproximar do local do acidente, na certeza de não correr qualquer perigo. A corrente eléctrica de média e alta voltagem (superior à doméstica) pode descrever trajectos em “arco”. Esta corrente é conduzida pelo pavimento até 17 a 18 metros de distância do local do acidente.

As manobras convencionais de reanimação básica devem ser iniciadas sem demora. A paralisia muscular, em particular depois de descarga de alta voltagem (rede industrial), pode persistir por várias horas, tornando-se indispensável manter o Suporte Básico de Vida. Por outro lado, em acidentes devido a corrente alterna de alta voltagem é frequente surgir fibrilação ventricular, só possível de ser diagnosticada através da monitorização cardíaca. Também aqui o Suporte Básico de Vida se torna indispensável.

É importante persistir nas manobras de SBV em vítimas de electrocussão, pois os tempos de recuperação são bastante alargados.

Envenenamento e Intoxicações

É vital que o socorrista não se exponha a qualquer tóxico. Se a vítima estiver contaminada com venenos ou tóxicos deverão ser utilizadas luvas e outro material de protecção e, logo após, removidas as peças de vestuário contaminadas.

Investigar em detalhe as condições em que ocorreu a intoxicação, inquirindo os acompanhantes, familiares ou testemunhas. Observar a vítima em busca de pistas diagnósticas, tais como cheiros típicos, marcas de picadas de agulha, restos de embalagens de medicamentos ou sinais de corrosão da mucosa oral.

Limpar e garantir a permeabilidade da via aérea, avaliar a ventilação e a existência de sinais circulatórios. Quando em presença de tóxicos como cianeto, sulfitos de hidrogénio, corrosivos ou organofosforados, evitar a ventilação boca-a-boca e ventilar a vítima com máscara facial. Deve haver especial atenção à permanência em ambientes de monóxido de carbono ou outros gases tóxicos.

Afogamento

Significa paragem cárdio-respiratória num fluido, geralmente, a água. A consequência primária da submersão é a paragem ventilatória. A paragem cardíaca é secundária. A circulação cerebral pode ser preservada durante algum tempo, em particular nas crianças. As manoras de reanimação podem ser bem sucedidas mesmo após longos períodos de imersão, em particular se esta ocorreu em água fria pois o afogamento associa-se muitras vezes a hipotermia. Em suporte básico não é relevante a diferença entre água doce ou salgada.

É essencial que quem socorre não corra riscos ao tentar salvar a vítima.
Sempre que houver suspeita de traumatismo craniano ou vertebral associado a desporto aquático ou mergulho, a permeabilidade da via aérea deve ser assegurada pela elevação da mandíbula. A coluna, como já foi referido, deve ser mantida alinhada durante a mobilização utilizando, logo que possível, um colar cervical.

As manobras básicas de reanimação são de difícil execução em águas profundas. Logo, socorristas pouco treinados não devem iniciar manobras até que tenham um ponto de apoio. Deve tentar-se ventilar utilizando o método boca-nariz por ser de mais fácil execução. Se não há ventilação espontânea após abertura da via aérea devem fazer-se insuflações durante um minuto.

Se se mantiver em PCR (paragem cárdio-respiratória):

~ Tempo de deslocação até terra é inferior a 5 minutos: manter as insuflações durante a deslocação da vítima

~Tempo de deslocação até terra é superior a 5 minutos: fazer mais um minuto de insuflações e trazer a vítima para terra sem novas tentativas de insuflação

Por espasmo da laringe, cerca de 10% dos casos não apresentam qualquer fluido na via aérea (afogado “seco”), não devendo ser preocupação a eliminação da água expirada porque esta é em pequena quantidade e rapidamente absorvida pela circulação sanguínea. Qualquer tentativa de remover esta água da via aérea por outros meios que não um aspirados de secreções é desnecessária e perigosa.

As compressões abdominais podem causar regurgitação gástrica, devendo ser evitadas (a não ser que apresente sinais evidentes de corpo estranho na via aérea).

Ter em atenção que as vítimas de afogamento têm muitas vezes hipotermia e bradicardia (frequência cardíaca abaixo do normal) sendo necessário mais tempo que os 10 segundos para localizar e determinar a presença ou ausência de sinais de circulação.

Os métodos devem ser mantidos durante mais tempo porque a hipotermia e a bradicardia podem exigir manobras de PCR com maior duração. Proceder segundo o algoritmo de SBV Adulto para vítima afogada.

~ por Fran em Dezembro 12, 2008.

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