Conversa de Escritores

Faz já vários anos que me sento aqui, todos os dias, horas a fio. Deixo-me ficar por ali a observar o mundo à minha volta. O silêncio, impetuoso e insolente, que se apodera de mim, está sentado ao meu lado. Converso com ele, discuto a próxima frase, apaga-me as palavras mal escritas, corrige-me a gramática. Viajamos de linha em linha, de parágrafo em parágrafo, escrevemos páginas inteiras. Volto ao passado e escrevo sobre mim, tempos de guerra e de trabalho árduo, escravatura e o óptimo faro para o diamante. De ingerir essa pedra preciosa, podia ser que desse jeito mais tarde. Era uma criança pouco convencional. Auspicioso e sereno, já pensava no seu futuro.

Ao longe ouvi a tua voz a gritar por mim, levantei-me bruscamente. Deu-me uma tontura e caí.

Do outro lado do mundo todos se riam dele. Joaquim levanta-se e diz «hoje de mim, amanhã de ti».

Sentei-me novamente, na minha companhia. Escrever para ninguém, escrever para apenas nós próprios é um acto muito solitário. E penso para comigo: «só a dor faz crescer, mas a dor deve ser enfrentada cara a cara; quem foge ou se compadece de si próprio está destinado a perder». E nesta altura faço de suas palavras as minhas:

A minha vida? Não é fácil de explicar. Não tem sido o percurso naturalmente esplêndido que eu imaginava que pudesse ser mas também não tem sido um fura vidas… Mas não se iludam. Não sou nada de especial e disto estou certo. Sou um homem vulgar, com pensamentos vulgares, e vivi uma vida vulgar. Não há momentos dedicados a mim e o meu nome daqui a uns anos será esquecido… mas amei outra pessoa com toda a minha alma e coração e isso para mim é que contou…

~ por Fran em Outubro 4, 2009.

5 Respostas to “Conversa de Escritores”

  1. Gostei :)

  2. hás-de ler a minha obra :)

  3. sim, quero muito:)

  4. Tinha que deixar aqui o meu feedback. Primeiro, a ideia de conversar com o silêncio é deliciosa.

    Em segundo lugar, a vulgaridade. Nada é mais comum do que a nossa própria vulgaridade e, no entanto, nada é mais comum do que o desejo de ser notável, como disse Shakespeare (‘Não tem sido o percurso naturalmente esplêndido que eu imaginava…’).

    A tua relação com a dor é ainda um mistério que tentas dissecar neste acto solitário de escrever para ti: sensível (‘mas amei outra pessoa com toda a minha alma e coração e isso para mim é que contou…’) e corajosa (‘só a dor faz crescer, mas a dor deve ser enfrentada cara a cara’). O que é a dor senão algo inevitável? Poderá ser algo mais? E se for só isso? De onde vem esta dor? São as perguntas que me ocorrem. Há uma identificação clara de um motivo para esta dor (‘Ao longe ouvi a tua voz a gritar por mim…’).

    O formato introspectivo é interessante. É facilmente conciliável com os nossos próprios sonhos, medos, desejos. O tema de um amor perdido (a que recorres frequentemente) é provavelmente muito comum. Porém, não é um tema fácil, e precisa de uma abordagem nova e fresca, correndo o risco da tua obra ser um déjà vu de outros autores ou pessoas em quem te inspiraste e cair na vulgaridade obtusa.

    Espero que o feedback tenha sido útil.

    Abraço :)

  5. Sim senhor, gostei da tua interpretação. Mas este texto não tem nada a ver com o livro ;p o “hás-de ler a minha obra” foi um aparte para a marta!

    O mais provável é bater na mesma tecla, sem dúvida. Na época em que o tempo e o espaço se inserem até, mas não se vai tratar de um amor perdido. Não posso revelar ainda grande coisa, fica o suspense ;D se bem que deves ser dos poucos que sabe grande parte da história, talvez o único

    Abracito

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