Escrevendo-te

Uma entrada comedida anunciava antecipadamente o que ninguém deseja a ninguém. Marcado pelo seu nome desconhecido, acordara com o pressentimento de que faltava algo ou alguém. Aparecera-lhe na idade média da sua vida, deteriorando o seu intelecto e a sua capacidade de julgamento e memória.

De olhar donoso e extremoso, fincava a secretária meia vazia e, à vista desarmada, vislumbrava o lápis e umas pequenas folhas gastas e despidas do seu bloco de notas. Levantou-se. Esticou-se. Sentou-se.

Involuntariamente, a sua mão pegou no lápis e começou a escrever. Já não sabia ler… ou pelo menos não se lembrava de como o fazer. Apenas sentia que lhe faltava algo ou alguém. O que escrevia parecia fazer todo o sentido mas a sua doença ensinara-o a perder o jeito. O passado apagado, o presente esquecido mas o futuro continuava na mesma, incerto. Entre períodos de confusão e desorientação, eram visíveis o aumento da inquietação e agitação… Em períodos de declínio havia algo que continuava a persistir… faltava algo ou alguém mas o lápis e o papel, os nomes que lhes dava, estavam consigo… faltava então alguém. Um sentimento de penitência vindo de dentro, criava as lágrimas mais sinceras e esquecidas e ingenuamente rotulava-lo de amor em tempos de guerra. Sentado na sua poltrona com estofos pincelados de luz e brilho através dos amarelos renovados, verdes e caquis, continuava a escrever-lhe com o pressentimento de que faltava o nome desse alguém. Desse amor que sabia que existia mas que em tempos de guerra teimava a tenebrizar. Sorriu, acreditou, chorou.

Ganhou forças e lá se levantou. Deitou-se e lá conseguiu adormecer. No fim escrevera o seguinte: «não me perdoes pelo que escrevo, estou vivo e de volta para cuidar de ti… porque mesmo em tempos de guerra e sofrimento há amores que resistem a tudo… resistem daquela maneira que só nós sabemos.»

Nunca mais acordou.

~ por Fran em Julho 7, 2010.

Uma resposta to “Escrevendo-te”

  1. Uma coisa que li, me espantou bastante e que aproveito para partilhar: Os prisioneiros dos campos de concentração durante a II Guerra mantinham as forças ao pensar nas pessoas que amavam, mas não pensavam em sexo (‘Um psicólogo num campo de concentração’, Viktor Frankl). Isto leva-me a pensar que o elo entre as pessoas é essencial e forte, mais forte do que a própria “vontade” da espécie se perpetuar.

    É normal que, não tendo respostas claras para algo desta natureza, nos continue a surpreender. Exercício de escrita curioso. Não gosto da estética da frase «cheia de luz e de brilho», parece-me uma redundância em que «brilho» não tem utilidade. Gosto do contraste entre o amor que resiste e o físico que não. (Não me alargo mais) Abraço

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